Fichamento ''Lições de Arquitetura'', Herman Hertzberger

PREFÁCIO
- uma biblioteca repleta de referências e de exemplos arquitetônicos para consultar sendo um arquiteto
- o objetivo do livro é despertar uma mentalidade arquitetônica nos leitores, uma grande mentoria para novos arquitetos

A. DOMÍNIO PÚBLICO

 O Público e o Privado
  - a oposição extrema entre público e privado (coletivo e individual) é falsa e simplista
  - polarização do individualismo exagerado e do coletivismo exagerado --- ou um ou outro (Hertzberger critica isso, pois cria espaços não funcionais ou isolados)
  - os conceitos de ''público'' e ''privado'' não devem ser antônimos, mas sim compreendidos em termos relativos (a responsabilidade de um espaço, a relação entre a propriedade privada, a supervisão etc.)

 Conceitos
  - Demarcações territoriais: um espaço pode possuir ''sequencias de gradação distintas de acesso'' (gradações de demarcações territoriais), tornando ele mais maleável em relação aos aspectos público e privado. Basicamente a criação de ambientes semiprivados ou semipúblicos. A articulação de materiais, de luz e de cor podem ser ferramentas usadas pelo arquiteto para projetar cada espaço e segmento de acordo com sua demarcação.
  - Diferenciação territorial: ao fazer as demarcações discutidas acimas em um edifício ele passa a apresentar diferentes ambientes no que diz respeito ao acesso, à responsabilidade, à manutenção etc.
  - Zoneamento territorial: '' O caráter de cada área dependerá em grande parte de quem determina o guarnecimento e o ordenamento, de quem está encarregado, de quem zela e de quem é ou se sente responsável por ela''.
  - o arquiteto pode e deve criar condições em um espaço para acrescentar senso de responsabilidade e, consequentemente, promover envolvimento no arranjo do espaço -> De usuário a morador.

 O ''intervalo''
  - a soleira fornece a chave para a transição e conexão entra as áreas com demarcações territoriais divergentes: ''encontro e reconciliação entra a rua, de um lado, e o domínio, de outro''.
  - a criação de espaços transitórios (intervalo) ajuda a criar um sentimento comunitário

 Obras Públicas
  - as Obras Públicas são muitas vezes impessoais e, embora tenham a intenção de melhoras os espaços públicos, afastam os indivíduos, pois esses não se veem pertencentes ao espaço padronizado e despersonificado
  - é necessário que o espaço coletivo cuja intenção é ser usado por uma determinada comunidade seja construído de acordo com as vontades e as necessidades desse grupo de pessoas, para garantir que ele seja usado e não abandonado -> o arquiteto, segundo o autor, é a entidade pequena capaz de entender os indivíduos e duas vontades transparecendo esse levantamento no planejamento dos espaços coletivos.

 A Rua 
  - A rua passou a ser vista como um lugar distante do indivíduo e hostil, quando na verdade deveria ser um espaço de convivência e de uso seguro por todos -> o layout e o planejamento é crucial para a criação desse ambiente ideal.

 O Espaço Público e Privado
  - o mercado pode ser uma ferramenta de união entre campo e cidade e de construção de espaços públicos que funcionem.
  - é necessários ambientes coletivos hospitaleiros que convidem a convivência e o uso dele, bem como é crucial, não só coletivizar e reviver os espaços públicos, como também quebrar a barreira abrupta e rígida  entre o público e privado.
  - ''Ao selecionar os meios arquitetônicos adequados, o domínio privado pode se tornar menos parecido com uma fortaleza e ficar mais acessível, ao passo que, por sua vez, o domínio público, desde que se torne mais sensível às responsabilidade individuais, pode se tornar mais intensamente usado e, portanto, mais rico.''

B. CRIANDO ESPAÇO, DEIXANDO ESPAÇO

 Estrutura e Interpretação
  - ''A segunda parte vai abordar a reciprocidade da forma e do uso, no sentido de que a forma não apenas determina o uso, mas também é igualmente determinada pelos dois na medida em que é interpretável''
  - o projeto de um lugar, idealmente, deve se preocupar com todas as interpretações individuais possíveis.
  - língua e fala 
  - Formas e Interpretações: um plano urbano/estrutural amplo deve acomodar abordagens e usos diferentes. (exemplos: Canais de Amsterdam, Viaduto da Praça da Bastilha, Viaduto Santa Tereza
  - Os usos e interpretações múltiplas NÃO devem ser deliberadamente adicionados na estrutura. O que Hertzberger disserta é a capacidade de uma mesma estrutura exercer diferentes papéis dentro de uma cidade ao longo do tempo. Fora que em nenhum momento ele propõe que a estrutura ou a forma mude em decorrência da necessidade, mas sim que essa forma seja usada de diferentes maneiras, assumindo diversas aparências ao passo que permanece fundamentalmente a mesma.
  - A estrutura que, em sua constância, seja capaz de absorver a mudança.

 Estrutura como Espinha Dorsal Gerativa: Urdidura e Trama
  - Urdidura e Trama: Metáfora para como um espaço deve ser projetado e se comportar -> a urdidura é o tecido firme e tensionado, enquanto a trama traz as cores e a textura para a versão final, logo, um espaço deve ter uma estrutura firme, mas deve ser usado, coincidindo no tempo, de diversas formas.
  - Plano Le Corbusier Argel - Enquanto uma estrutura coletiva fixa delimita os limites de cada moradia individual, o conjunto de moradias determina a aparência do todo.
  - Caos e ordem
  - ''Estrutura e Preenchimento não são apenas equivalentes, mas também recíprocos (...) quanto melhor for a qualidade de cada uma delas menos importante será a distinção entre as duas categorias''
  - Grelha:  Sistema de ordenação que, por ser rígido, aparenta ser opressivo, porém, Hertzberger explica que deve-se buscar o verdadeiro equilíbrio entre as regulamentações e a liberdade de escolha.
  - o xadrez, mesmo tendo regras rígidas, possui jogadas múltiplas a depender da criatividade de cada jogador.

 Ordenamento da Construção
  - quando as partes determinam o todo e vice-versa -> Uma frase é determinada pelas palavras que estão nela, mas também as palavras dessa frase são determinadas pelo conjunto final: a frase
  - o ordenamento de uma construção é um projeto que antecipa o desempenho que se pode esperar do espaço em questão.
 
 Conceitos
  - A funcionalidade não deve ser a única preocupação quando se projeta um espaço, pois os edifício ou espaços projetados unicamente e especificamente para sua função (forma se molda segundo a função) tornam-se obsoletos com o tempo, já que as necessidades e usos de um ambiente mudam 
  - A flexibilidade de um espaço é frequentemente a solução usada para romper com o funcionalismo extremo, mas essa solução se limita às mudanças físicas de um espaço, o que não necessariamente seria o mais ''correto''. Essa opção parte do pressuposto que não há uma forma que contemple todas as interpretações, sendo necessário a mudança do espaço.
  - Herman Hertzberger, portanto, propõe o conceito Polivalência: Um espaço deve ser um ambiente harmonioso que consiga contemplar diversas interpretações individuais e múltiplos usos mesmo que sem mudanças físicas significativas.
 
 Criando Espaço -> o projeto de um lugar não deve buscar uma meta inequívoca, mas sim, deve estar aberto às interpretações para que, dessa forma, adquira identidade pelo uso. '' (...) não deve ser apenas neutro e flexível - e portanto não específico -, mas deve possuir aquela eficácia mais ampla que chamamos de polivalência.''
 
 - O arquiteto deve entender que as interpretações individuais são a chave da aparência de um projeto, não no sentido de não ser necessário para a cidade como profissional, mas como entidade capaz de reconhecer o poder das interferências pequenas em um espaço , trabalhando com esse pressuposto. Um projeto deve INCENTIVAR as interpretações individuais.

C. FORMA CONVIDATIVA
 
 - a arquitetura é o interesse pela vida cotidiana, na visão de Hertzberger
 - utilidade + beleza
 - o projeto deve ser estimulante tanto quanto confortável 
 - essa seção do livro disserta como princípio geral a forma ''para desempenhar diversos papéis sob circunstâncias mutáveis, não apenas pela criação das condições necessárias mas também pelo incentivo real ao uso diferenciado (...)''. 
 - degraus mais altos, o parapeito, paredes mais baixas (dentre outros) podem funcionar como assentos ou prateleiras que de certa forma aumentam o uso de um espaço e também providencia mais interações nesse espaço. 
  - O espaço habitável entre as coisas -> o informal sendo o uso cotidiano de um espaço (escada, parapeito, calçada) que inclui tanto a funcionalidade desse objeto (escadaria ''serve'' para subir e descer patamares) quanto as interpretações individuais (uma escadaria pode funcionar como assento, por exemplo)
   - o arquiteto deve articular um espaço, levando em consideração as dimensões, o lugar, a ''capacidade'', a escala etc., para potencializá-lo, lembrando que sua caracterização acontece pelo uso e pelas interpretações individuais, logo, esses elementos não são só bem-vindo, como devem ser incentivados pelo projeto.

 Visão I
 - equilíbrio entre a visão e a reclusão -> feito pelo arquiteto que deve entender que a abertura e a separação de um espaço são complementares, ou seja, um depende do outro. (exemplos: desníveis, paredes, meia paredes)
 - gradações de abertura e isolamento é uma característica do espaço interessante
 - o arquiteto deve construir paredes e aberturas

 Visão II
  - trazer o mundo exterior para dentro (por meio, por exemplo, do uso do vidro, do ângulo do edifício, de curvas na estrutura, de cantos entre duas paredes, do planejamento da visão das janelas interiormente etc.)

 Visão III
  - ampliando as necessidades que deve-se constar no projeto, Hertzberger explicita que um espaço deve acomodar os sentimento se os desejos dos vários tipos de pessoas. O espaço deve dizer ''sobre o mundo'' aos seus usuários.
  - ''Quanto mais níveis de experiência - no sentido de aspectos - forem levados em conta em nosso projeto, mais associações podem ser feitas e, portanto, maior será a gama de experiências para diferentes pessoas em situações diferentes, cada uma com suas próprias percepções''. Um espaço é aquilo que falam, sente e pensam dele.

Equivalência
 - não deve existir diferenças rígidas entre os espaços, pois quebrando essa hierarquia, valoriza-se os espaço e incentiva os diversos usos nele a partir das interpretações individuais (as vantagens disso foram discutidas ao longo do livro todo)
 - cada elemento possui seu próprio valor, nem maior nem menor do que outro -> frente e fundo (em muitos projetos arquitetônicos existe uma clara hierarquia entre esses aspectos)
 - o arquiteto não pode fazer distinções de valores em seus projetos.  
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    Ler esse livro foi uma experiência maravilhosa, pude entender que o projeto de um espaço é muito mais do que estipular materiais e dimensões, englobando os impactos no cotidiano das pessoas que vão usar ele, a busca pelas interpretações individuais espontâneas e vários outros aspectos. É um livro que ensina a ser arquiteto.

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